Alberto Dines postou: O que virá depois?

Com narradores desanimados, sem inspiração, impera o enfado.

(…)

Espremida pela voracidade dos aliados e a mediocridade da situação, a Presidência da República compôs o primeiro escalão do Governo federal com inaceitável descaso – beira a desdém. Desleixo.

Garantida a troika da economia, o resto é o resto. Os treze novos ministros anunciados na véspera do Natal, com raríssimas exceções (…), configuram um escárnio. O ex-governador Cid Gomes, indicado para assumir a pasta da Educação – considerada vital para o futuro do país – celebrizou-se ao enfrentar uma greve dos professores cearenses com esta pérola: “Quem quer dar aula faz isso por gosto, e não pelo salário. Se quer ganhar melhor, pede demissão e vai para o ensino privado”.

Gilberto Kassab, novo ministro de Cidades é uma unanimidade: amigos e inimigos o consideram um dos piores prefeitos paulistanos, pior do que Paulo Maluf, em pé de igualdade com o sucessor, Celso Pitta. George Hilton, pastor, teólogo e animador de TV (como se apresenta) será o anfitrião da primeira Olimpíada sediada na América do Sul. Ao lado da presidente Dilma Rousseff.

Tantas e tamanhas aberrações só podem ter sido cometidas por pirraça, como provocação, (…).

Resta uma preocupação maior: o que virá depois?

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/26/opinion/1419613684_915232.html 

Ganhamos

Independentemente do resultado. Ganhamos tempo, muito tempo, discutindo com pessoas que não mudariam de ideia. Ganhamos a compostura. Ganhamos a razão. Ganhamos a dignidade.

Com uma diferença de 3,28%, Dilma ganhou as eleições. Aécio Neves perdeu pois não ousou deixar a zona de conforto durante sua campanha, esta teria sido a causa de derrota para Renato Pereira, o marqueteiro responsável pela pré-campanha de Aécio Neves, segundo publicou a Folha de S. Paulo nesta segunda-feira, 27 de outubro.

Visão antiquada e patrimonialista, o anúncio de Armínio Fraga e o agressivo le-vi-a-na foram os erros cometidos pelos tucanos. A economia do cotidiano, o poder de consumo, mais e melhores empregos e perspectivas melhores de futuro, deveriam ter sido os temas centrais. Somente as ideias e os compromissos centrais deveriam ter sido divulgados, especificar os detalhes apenas abriria brechas para ser atacado. Como, no nordeste, leviana é entendido como “mulher da vida” o uso da expressão por Aécio Neves teria soado exageradamente grosseiro.

 

Mineiros e mineiras

Aécio perdeu para Dilma, especialmente em Minas Gerais, seu estado natal, a diferença foi de  550 mil votos. No entanto, como os mais pessimistas cáculos tucanos previam uma vatagem de 1,5 milhão de votos sobre Dilma se observa uma “margem de erro” de 2 milhões de votos.

“Se Aécio tivesse conseguido o que estava esperando no seu estado natal, hoje estaríamos comemorando a vitória do PSDB”, lamentou um tucano de São Paulo, segundo o Blog do Camarotti.

O que levou Aécio a perder em casa? Aécio tomou as decisões políticas erradas em seu próprio quintal. Não se importou com o processo de escolha do candidato a governador de Minas Gerais, fez uma campanha com cara de passado e se concentrou em seu estado tarde demais, depois que as propagandas petistas já o trucidavam na TV, martelando o slogan “quem conhece Aécio não vota em Aécio”.

 

#falaqueeuteescuto

Talvez a característica mais importante de Guimarães, ainda mais que os neologismos, era essa: Dizer que todo mundo é igual, mesmo que diferente. Dizer que o nordeste é o mundo, e o jagunço é qualquer um. E, no fim das contas, é isso o que fica das eleições mais impressionantes que já vivi, e é isso que tem que ficar. Todo mundo pensa igual. Todo mundo vota igual e o assistencialismo de uns é diferente do assistencialismo de outros, mas no fim das contas todo mundo se baseia em sua própria fome. Dizer que as bolsas compram votos não é exatamente errado, mas sim simplesmente ingênuo. As bolsas compram tantos votos quanto as estradas, os investimentos econômicos e o plano real. Todo mundo vota em quem supre suas necessidades – seja a fome, seja a grana. Toda gente é igual. Toda gente é nordestino.

João R. Zanetti

 

Se você acreditou que a mudança ou a salvação viria com o candidato que perdeu. Lembre-se que pessoas também viram essa possibilidade com o que venceu. Desde quando sua opinião é mais correta e mais importante que a do próximo?

Érika Baggio

 

 

Leonardo Sakamoto postou: Reservar 99% das vagas da USP para escola pública. E cobrar do 1% mais rico

Estava lendo o argumento de alguns acadêmicos favoráveis à cobrança de mensalidades em universidades públicas e, por mais que respeite a opinião deles, não tenho como não achar graça em alguns.

Por exemplo, a ideia de que, ao pagar pela educação, o aluno dará mais valor ao ensino. Quem diz isso só pode ignorar o que acontece nas caras escolas e universidades particulares! Dou aula em uma e sei muito bem o que acontece na cabeça de alguns fuinhas que, nascendo em berço de ouro, acreditam que tudo pode ser comprado. Inclusive, sua mais completa indolência. Noves fora alguns pais e mães de alunos que vocês desacreditariam se eu contasse o naipe das reclamações.

Leia o texto completo!

Cris Dias postou: O Brasil e a correria que mata

São Paulo é uma cidade doente. Uma cidade onde cenas como essa são corriqueiras. Onde as pessoas começam as conversas falando da “correria”. Onde se vive uma grande ilusão coletiva de auto-importância, onde o agora não basta, é tudo para ontem, todo mundo é importante e precisa resolver alguma coisa com urgência.
Fabio Yabu, clique e leia

Todos os dias, indo e vindo do trabalho, eu passo por essa esquina aqui.

Eu vou andando pela Manoel da Nóbrega e preciso atravessar a Al. Santos. Tem milhares de esquinas assim pelo mundo. Os carros na Manoel podem entrar à direita na Santos (a maioria faz essa curva) mas há uma faixa de pedestres bem ali. Portanto se eu atravesso na faixa os carros tem que parar e me deixar passar. Só que, como já disse aquele famoso filósofo, o Anônimo, o Brasil é o país da frase “tomara que essa lei pegue”. Onde uma lei ser seguida ou não é só opcional e a tal da voz do povo pode arrumar argumentos para seguir ou não a lei. Nesse caso o argumento é “Se eu for deixar todo pedestre passar eu não saio do lugar”.

Nessa esquina eu já fui quase atropelado, xingado, buzinado e, quando estava dirigindo no mesmo lugar e deixando um pedestre passar, buzinado e xingado por quem vinha atrás. Porque as pessoas em seus carros não podem parar, os pedestres que parem, que deem a volta, que se explodam. Eu, que prefiro estar vivo do que com a razão, opto por dar a volta e cruzar no sinal, à esquerda, mesmo que depois tenha que atravessar a rua de novo para pegar o metrô na Paulista.

Longe de mim querer defender o estilo de vida americano, mas vou me permitir cair no clichê de citar “a América”, como eles dizem lá na América. Passei 10 dias em Austin e chegava a ser incômodo para minha mente já paulistana como o pedestre é respeitado em todos os cantos sem questionamento. Os moradores indo trabalhar e o trânsito parado porque 65 mil pessoas estavam andando a pé para lá e para cá para ver suas palestras. Só que o trânsito parava, amigão. Eu mesmo parei num sinal com a mesma configuração desse da Al. Santos (todo mundo querendo entrar para a direita) e em mais de uma ocasião os carros simplesmente não andaram entre o “abrir” e fechar do sinal de carros porque algumas dezenas de pessoas estavam atravessando. Se você quis vir de carro o problema é seu.

Eu falo de São Paulo porque é aqui que eu moro e aqui que passei a virar pedestre e usuário de transporte público. Minha (falta de) fé no brasileiro me diz que no país todo é assim. Eu sei que no Rio a coisa muitas vezes é pior, já que os motoristas se agridem uns aos outros, mas pelo menos o número de motoqueiros é menor o suficiente para que a batalha campal que acontece em São Paulo quase não exista. Motoqueiros paulistas, aliás, que acham que a linha tracejada nas ruas da cidade significa “pista expressa para motos em qualquer situação”. Quando o governo ameaçou fazer valer a lei de que motos só podem trafegar nessa faixa quando os carros estão parados os motoqueiros (motoboys profissionais e motoqueiros que usam a moto para ir e vir do trabalho) alegaram que isso não podia acontecer porque “aí não vale a pena ter uma moto”. Como se a lei e a ordem servissem para isso, para que seu estilo de vida valha, não importando o resto.

Desde pequeno ouvi a história de que “seu direito acaba onde começa o meu”. Isso, portanto, significa que “meu direito acaba onde começa o seu”. Só que esses 10 dias no Texas — no Texas, cara! Aquele lugar onde a gente acha que as pessoas andam armadas e se matando — confirmei com meus olhos e minha pele que o Brasil é o lugar onde esta afirmação não é verdadeira. Cada um que cuide do seu espaço. Isso vale não só para o trânsito. O brasileiro é um povo espalhado, como a gente costumava dizer lá no Rio. É só você ir em espaços públicos com lugares para sentar, aeroportos ou praças de alimentação por exemplo, para ver pessoas em pé e bolsas ocupando cadeiras. Porque afinal de contas minha bolsa é mais importante que você — eu cheguei primeiro e peguei lugar, então espere na fila. O Brasil podia tranquilamente alterar o Código de Trânsito para os seguintes termos:

No cruzamento a preferência é do carro maior. Em caso de carros do mesmo tamanho o mais caro tem a preferência.

Em local de estacionamento proibido se o motorista ligar o pisca-alerta e for ali rapidinho resolver um problema o estacionamento passa a ser permitido.

Para o brasileiro as leis não existem para tornar a vida de todo mundo melhor. Elas existem “pra me fuder” ou “pra alguém se dar bem com isso”. A culpa não é do sistema, não é do Kassab, do Eduardo Paes, da Dilma, do Lula, do FHC ou do Obama. Não é nem dos ricos com seus carrões. A culpa é nossa. O trânsito é uma merda porque preferimos dormir 15 minutos a mais do que pegar um ônibus que — ó não! — pode nem ter lugar sentado. A culpa é do ritmo de vida que nos impomos e nos orgulhamos. “Tá foda, cara. Maior correria.” é algo que nos orgulhamos em dizer para os amigos. Não podemos ficar 15 minutos esperando uma mesa em um restaurante, não podemos dar 1 semana de prazo para nosso fornecedor. Tudo é para ontem, mas tudo deve ter a qualidade de anos de preparo.

Trabalhar até mais tarde em São Paulo é regra. A Anna sempre conta de quando trabalhava em uma empreiteira na Zona Sul e quando dava o “fim” do expediente, 18h, ela era a única a se levantar — precisava pegar a Clarinha na escola — e via os colegas de trabalho virarem os olhinhos. Desculpa, galera, nem em NYC e Londres, capitais mundiais do capitalismo, isso rola. Aqui rola o pensamento de que se eu não trabalhar 12 horas por dia o patrão vai arrumar alguém que tope. E quer saber? Ele vai conseguir mesmo. Não é uma questão de “não quer brincar muda pro meio do mato” porque trabalhar até tarde é só parte do problema. A coisa chegou num ponto onde estamos literalmente nos matando nas ruas, ou arrancando braços e fugindo.

Nos matamos, nos agredimos e no fim das contas pra quê? No fim do dia você correu, buzinou, quase atropelou 20 pessoas e fez o quê? Qual coisa tão importante assim você fez e deixou para o futuro? Espero que sua resposta tenha valido todo esse sangue.

Leia mais de Cris Dias, aqui!

Vanessa Barbara postou: Leitor de livraria

A megalivraria é a nova biblioteca. Muita gente almoça às pressas e deixa de escovar os dentes só para poder passar mais tempo lendo confortavelmente num pufe de livraria. Comprar o livro, nunca — a graça é ler um trecho por dia, pular o almoço, disputar com outros dois clientes o único volume em estoque e fazer anotações teóricas num caderninho.

O típico leitor de livraria é aquele que traz seu próprio marcador (ou pega emprestado no caixa do estabelecimento) e esconde os livros ainda não concluídos em lugares aleatórios, a fim de garantir seu paradeiro no dia seguinte. Para esse indivíduo, é muito difícil lidar com a realidade de que o seu livro pode ser vendido de repente, antes que ele chegue ao final, e ainda por cima para alguém que não pretende lê-lo. Ou que não vai lhe dar o devido valor. Por isso, o leitor inveterado recorre a associações mnemônicas a fim de recordar onde deixou o tomo dois de Guerra e paz: na estante de viagens, atrás do guia da Coreia (nota mental: parei na página 234). As benevolentes, de Jonathan Littell, pode ser oculto na área de estudos religiosos. Já a edição comentada de Alice no País das Maravilhas ficaria na seção de moda, ao lado de um livro sobre chapéus. Ou na de literatura brasileira, junto a um romance do Paulo Coelho. (Advertência: a associação com o Chapeleiro Maluco e o Coelho Branco é um tanto manjada e pode ser de fácil decodificação para os vendedores mais calejados.)

A livraria é mais agradável do que a biblioteca por conter uma miríade de poltronas, cadeiras e almofadões com níveis variados de comodidade — muitos leitores caem no sono e são acordados no fim do expediente por um funcionário fechando a loja. Há quem diga que encontrou a cura da insônia na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, outros preferem um lugar mais intimista como a Livraria da Vila para pegar no sono lendo contos de fadas. A Saraiva Mega Store do Shopping Center Norte é recomendada para quem deseja comentar passagens de livros com desconhecidos.

As livrarias possuem os últimos lançamentos e todas as obras têm cheiro de novas. Além disso, nas lojas não é preciso deixar a bolsa no guarda-volumes e é muito difícil levar bronca, ao contrário do que acontece nas bibliotecas. Nenhum funcionário segue o leitor perguntando incessantemente o que ele está procurando, nem há proibição expressa de vasculhar livros por conta própria, vagando pelas prateleiras e tirando volumes do lugar. Isso, como todos sabem, é severamente punido nas bibliotecas públicas, onde o que menos se aprecia é a existência de leitores.

A habilidade do leitor de livraria é a de ler sem deixar vestígios, sem machucar as páginas ou provocar dobras desagradáveis. Ele às vezes leva um laptop para fazer anotações enquanto avança e para pesquisar o significado das palavras, caso esteja com preguiça de ir à seção de dicionários. Ri em voz alta e pede silêncio se alguém está conversando nas proximidades. Quando devora um thriller policial e está nas últimas páginas — o detetive prestes a desvendar o culpado —, pode se incomodar com a interrupção de um vendedor pedindo licença para mostrar o título a um cliente interessado. “Só um segundo”, diz, correndo a página com os olhos. “Eu sabia! Desde o começo!” e, levantando-se: “Você precisa ler isto aqui. É muito bom”. Entrega o volume nas mãos do funcionário, agradecendo e dando boa tarde a todos. No dia seguinte, volta para pedir indicações de títulos policiais naquela mesma linha.

Há quem afirme ter lido nessas condições todos os sete volumes de “As crônicas de gelo e fogo”, de George R. R. Martin (o primeiro tomo está na seção de literatura infantil, perto de um conhecido clássico da Companhia das Letrinhas) e Caninos brancos, de Jack London (na estante de livros técnicos, atrás de Onze técnicas avançadas para clareamento dental). No mesmo setor se encontra O deserto dos tártaros, de Dino Buzatti, e a biografia de Tiradentes, ambos na diagonal, bem no fundo da estante.

Os banheiros desses estabelecimentos também costumam ser melhores do que os de bibliotecas, mas infelizmente não é possível levar um livro para acompanhá-lo lá dentro — há detectores na entrada.

Nas megalivrarias também há cafés, de modo que o leitor mais folgado pode apreciar um bolo de morango com suco enquanto se dedica à fruição de algo que não vai comprar. Vez ou outra há distribuição gratuita de champanhe, vinho e amendoim nos vernissages de lançamento, o que pode ser um incentivo a mais para ler a obra da noite, tirando dúvidas in loco com o autor. Ou para pedir emprestada uma das cadeiras do anfitrião (“Eu não vou incomodar, só estou aqui terminando o capítulo”), lançando assim a moda das noites de autógrafo com um autor e um leitor, numa espécie de showroom do produto.

Duas regras de etiqueta para o leitor de livraria: levar a própria garrafa térmica de casa não é recomendado, tampouco fica bem tirar os sapatos para maior conforto.