No blog da Companhia das Letras, o escritor Michel Laub - autor de Diário da queda - fez uma listinha de pedidos de fim de ano para o meio literário.
A lista contém apelos desesperados para que as pessoas do meio (autores, críticos, críticos da crítica etc) se comportem feito gente e parem de repetir sempre os mesmos clichês e comportamentos irritantes.
Gostei bastante de alguns itens, por isso, copiei a seguir:
- Editores, prefaciadores e escrevedores de orelha: sigam o conselho de Nick Hornby e não entreguem metade da trama, de preferência nem 1% dela. Também evitem dizer que a história que temos em mãos é “em última instância, sobre a própria literatura” ou “em última instância, sobre a própria linguagem”.
- Polemistas: quando confrontados, a não ser que seus familiares e animais domésticos sejam nominalmente referidos, não acusem o adversário de estar levando para o lado pessoal. Admitam que alguém pode achar estúpido o que vocês afirmam — e, no limite, não há forma mais honesta de dizer isso do que usar a palavra “estúpido”.
- Produtores culturais, professores, bibliotecários: deixem uma pequena parte dos debates em feiras, festivais e eventos literários para a literatura em si, em vez de dedicar 100% de suas intervenções ao problema da educação, às políticas públicas para compras de livros e ao mercado.
- Conselho do item anterior aplicado a jornalistas: só algumas perguntas a menos, e se isso não der muito trabalho de pesquisa, sobre e-books, blogs, redes sociais e influência da internet na ficção.
Como deu para notar, minha listinha de itens queridos seguiu toda uma sequência numérica bonita de se ver. O problema foi o item que se seguiu a ela:
5. Pessoal dos itens anteriores que é contra renúncia fiscal no âmbito da literatura: nada contra seus argumentos — até concordo com muitos deles —, mas não deixem de explicar por que a ajuda a um escritor é moralmente diversa de casos que vocês em geral defendem (ou não criticam em público). Exemplos: bolsas para estudantes de letras, principalmente se você se enquadra nessa categoria, e subsídios à imprensa, principalmente se a empresa onde você trabalha tiver feito uso deles no passado (ou, mais provável, ainda faça no presente).
Sou dessas que acham errado escritor receber bolsa. Mais que errado, sinto mesmo que é algo deplorável. Me parece lógico que o escritor tenha as seguintes opções limpinhas para seu sustento:
- Um segundo emprego, como Machado de Assis, por exemplo, e toda a linhagem de escritores funcionários públicos desse Brasil brasileiro;
- Marido/mulher/pai rico. Nesse caso, o escritor seria como a blogueira mãe fazedora de cupcakes que aparece nesse post (há mil variações para essa categoria: a blogueira mãe artesã, blogueira mãe fotógrafa de Tumblr, blogueira mãe estilista, blogueira mãe chef etc.);
- Participar de todos esses eventos literários que pagam pela presença de escritores, mais ou menos como um cachê de príncipe de festa de 15 anos;
- Cursos de escrita criativa/literatura/afins da Escola São Paulo, Casa do Saber, Academia Internacional de Cinema etc;
- Engolir o choro e escrever algo que venda.
Por outro lado, sempre me pareceu justo que o Estado pagasse bolsa a estudantes e pesquisadores sem que eles precisassem “engolir o choro e pesquisar algo que venda”, o que aparentemente torna minha opinião bem contraditória.
Em ambos os casos, a maior probabilidade é que o dinheiro gasto pelo governo tanto em um escritor quanto em um pesquisador sirva apenas para o proveito da própria pessoa contemplada pela bolsa. É difícil que tanto um quanto outro escrevam algo que interesse outras pessoas, justificando assim o investimento público.
No caso dos estudantes, sempre pensei que era correto o Estado investir no escuro, mesmo sabendo que a maior parte dos estudantes e até dos pesquisadores profissionais nunca dará uma contribuição que valha a pena. Por que eu não penso o mesmo no caso dos escritores?
Reparem que sou uma pessoa acomodada, que não gosta de mudar de opinião. Se vocês puderem, por favor, resolver o impasse apresentado justificativas para ser legal dar bolsa para estudante e não ser legal dar bolsa para o talvez próximo Lima Barreto eu agradeceria de coração.
Juliana Cunha
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Oi Ju! Pode ser muito simplista o que vou dizer, mas enfim: no meu ver, investir no estudante é dever do Estado, seja ele estudante do que for, Direito, Letras, Química ou Artes Plásticas. Educação é um dos (poucos, na minha opinião) deveres do Estado. O mesmo para pesquisa: em geral se precisa de MUITA pesquisa para que se produza algo relevante, em qualquer área do conhecimento. Também me parece um dever, primeiro, do Estado, e depois, da iniciativa privada. Agora, uma vez formado, siga sua vida. Não há bolsa advogado, bolsa médico, bolsa engenheiro, bolsa arquiteto, para aqueles que se desvinculam do meio acadêmico. Deveria também ser assim para todas as áreas. Quer fazer cinema: engula o choro e faça 1 (pelo menos 1) filme que venda. Quer fazer moda: talvez vc tenha que começar como vendedora de loja. E daí? É duro pra todo mundo, é suado pra todo mundo, não é o perfect job pra ninguém. Eu tive bolsa para um mestrado. Mas uma vez formada, é cada um por si mesmo…